sábado, 13 de fevereiro de 2016

CAPÍTULO 1
ALFRIS E SELENE




Aag olhava os céus e durante alguns segundos, a visão das três luas de Ifíanor pareceu-lhe distante e melancólica, seus olhos lacrimejaram por instantes e ele não soube dizer o porquê, apenas sentia uma inquietude tomar o seu corpo como se sacudisse sua alma e mantivesse o restante inerte. Há poucos minutos estava em casa com seu irmão mais velho Alfris e havia deixado a filha pequena Lisa com sua esposa Lessa. Agora ambos chegavam perto dos portões do castelo de Dankar, onde assumiria o seu posto na muralha. Seu irmão era o chefe da guarda noturna e das defesas do lugar, foi ele quem indicou Aag para trabalhar lá depois que a pequena Lisa nasceu. Rapidamente era um dos melhores guerreiros e havia descoberto ser capaz de manipular um ou outro tipo de magia.             – Está no sangue – era o que dizia o irmão.
Depois que Alfris se apresentou, os grandes portões de madeira se abriram. A muralha exterior era de rocha pura, formando um grande arco de aproximadamente trezentos metros, encontrando-se com a montanha nas duas extremidades. Acima dos portões uma ponte levava até o outro arco, este invertido – suas pontas voltadas para o pátio principal eram como duas ferraduras viradas uma para a outra, e a menor propiciava aos arqueiros uma boa vantagem sobre quem invadisse, sem mencionar o fato de que a ponte que unia os dois arcos podia ser derrubada por um sistema hidráulico. Atrás do segundo arco estava a fortaleza que era cercada por uma grande montanha, impenetrável devido às suas rochas cortantes e caminhos cheios de armadilhas naturais. O castelo de Dankar pertencente ao reino de Vescra tinha um único objetivo: guardar um dos seis talismãs de Ifíanor, protegido pela feiticeira Selene.
 O castelo, em contraste com as grandes muralhas que possuía, era pequeno e encontrava-se na mesma altura destas. Um outro pátio interno após a segunda muralha conduzia ou à casa de armas à esquerda ou ao grande silo que servia para armazenar suprimentos para todos ali à direita. Havia uma ponte que saía do segundo arco até os portões da fortaleza. Se um invasor passasse pelos portões do castelo, seguiria por um corredor, atrás do qual ficava a câmara dos magos e logo após o salão do talismã onde Selene descansava.
Aag não sabia o porquê, mas se lembrou destes detalhes quando adentrou os portões. Lembrou-se também da passagem secreta rente ao muro esquerdo da segunda muralha, onde havia um mecanismo que abria uma pequena cavidade que era fechada por dentro. O caminho conduzia por dentro da muralha até um pequeno aposento atrás do salão do talismã. Lá havia um outro caminho dentro da montanha até a floresta perto do vilarejo mais próximo, onde já haviam guardas esperando no caso da feiticeira precisar fugir.
Somente ele, seu irmão, o chefe da guarda diurna e a feiticeira sabiam desta passagem, nem mesmo os seis magos tinham este conhecimento.
Selene era uma das magas mais poderosas de Ifíanor, e havia recebido a missão de proteger o talismã pelo próprio Círdan, o presidente do Alto Conselho das raças. A verdade é que Selene é a maior defesa do castelo, nós somos contratempos – pensou Aag.
Alfris sempre o protegeu e temia que se os portões fossem tomados Aag sucumbisse, portanto havia lhe ensinado uma forma de escapar atráves da passagem dentro da muralha. Aag sempre soube das intenções do irmão. Mesmo este sendo o mais natural possível, o disfarce das palavras não o enganaram, mas ele nada disse. Segundo o que dizia Alfris, os tempos eram sombrios desde o momento em que os centauros fizeram o inconcebível. Todos os reinos estavam em alerta, e Dankar não podia ser diferente. Dankar era quase um Estado autônomo em relação a Vescra, as tensões políticas fervilhavam e qualquer desculpa serviria para uma revolta ou para mais opressão.
 – O comando da guarda está sendo repassado a Alfris, o comandante noturno – gritou o capitão do turno matutino. Parece uma sentença ao invés de um encargo. Os homens que estavam em formação foram dispensados e os recém chegados ocuparam seus lugares.
– Está tudo tranquilo, mais uma noite calma meu irmão – disse Alfris.
– Esta quietude, porém, me aflige.
– Você com seus temores e crendices... Relaxe, homem, e vista sua armadura.
Aag limitou-se a gesticular com o rosto. Estranhamente a vontade de ver a família o assolou. Se pedir para sair Alfris não irá me perdoar, nem mesmo os homens que comando. Acharão que sou um tolo e não estou preparado.
Alfris colocou o elmo e seus olhos tocaram preocupados a face do irmão.
– Ei Aag, algo está o incomodando? Aag puxou sutilmente o irmão pelo braço e afastou-o dos demais que se preparavam para pegar seu turno.
– Alfris, estou com um pressentimento ruim hoje, não consigo parar de pensar nas meninas.
– Não fique assim, justo hoje que tenho boas notícias para você – Aag, com um olhar desinteressado, limitou-se a sacudir os ombros. – Aag, a indicação que eu fiz à Feiticeira para que inicie seu treinamento de mago no templo da Luz em Physhara foi aceita, ela concordou que precisa de mais uns dois oficiais bem preparados aqui e você será um dos escolhidos.
Aag não sabia como reagir, pois a aflição que o inquietava, embora tivesse diminuído, ainda incomodava, mas se esforçou para demonstrar alegria. O máximo que fez foi estampar um sorriso forçado e apático. Se não consigo ficar longe de minha família que está a poucos quilômetros daqui, imagine num centro de treinamento seletivo e exigente com o templo da luz?
– Alfris, eu agradeço, mas não sei se estou à altura disto, existem outros aqui mais bem preparados e que merecem mais do que eu.
– Não seja modesto Aag sei que você é novo, tem talento e coragem. Só precisa ser lapidado. E você é forte, está no nosso sangue.
Novamente aquela frase – pensou Aag.
– Mas e as meninas, como ficarão?
– Já coloquei a feiticeira a par de sua situação. Ela irá arrumar hospedagens dentro do castelo e dará a Lessa um cargo junto às serviçais enquanto você estiver fora. Ela, inclusive, deseja muito conversar contigo amanhã. Alfris o abraçou e Aag sorriu mais relaxado.
– Tem certeza de que não iremos dar trabalho? Lisa ainda é uma criança.
– A feiticeira disse que não será nenhum incômodo e eu estou fazendo o que acho melhor para o meu irmão, afinal você e as meninas são a única família que tenho. Além disso, ela disse que já iria tomar esta decisão, quer eu indicasse você ou não, reconhece que você tem talento e as qualidades necessárias para o posto. Agora coloque um sorriso em seu rosto e se apronte.
Enquanto Aag vestia o restante da armadura e se armava, pensava nas palavras do irmão: “você é forte, tem talento e coragem, está no sangue”. Quero tanto que estas palavras sejam verdades, mas que droga, hoje definitivamente não dá, por quê? Por que esta aflição me consome aos poucos?
Olhou para o irmão que parecia invulnerável, tamanha segurança e confiança, seu porte colossal e sua grande altura pareciam transportar alguém inabalável e invencível. O efeito que Alfris causava nas pessoas que o viam pela primeira vez era de temor, sua presença intimidava. Era robusto e moreno, cabelos curtos, tinha cerca de uns cento e vinte quilos, nos seus um metro e noventa, e o resultado disso tudo era uma feição forte e decidida.
Aag, com seu corpo menor, parecia um vaso delicado perto do irmão. Embora também fosse forte, seus traços eram muito parecidos. Talvez a ideia de ir para o templo não seja ruim, talvez fique como ele. Neste momento um pensamento inquietante o incomodou – isso nunca vai acontecer. Foi o suficiente para que a aflição que antes o incomodava como pequenas marteladas se tornasse mil sinos tocando de uma vez em sua mente. Tentou concentrar-se e outro pensamento cortou sua mente – ao menos vai fazer algo especial. Era uma voz que não era sua, durante toda a vida escutou vozes, pressentimentos que vez ou outra o incomodavam, mas eram raros, eram sobre alguém que iria machucar, mudanças climáticas, pessoas que teriam filhos... mas hoje aquilo estava exponenciado. Os pressentimentos, a aflição, os sentimentos pareciam uma multidão de gritos de alerta, ele sentia que algo ruim iria acontecer.
Em momento nenhum as vozes disseram, apenas insinuaram, mas Aag morreria naquela noite.

                                                           ***

Selene estava em transe havia alguns minutos. Era costume fazer aquele ritual todos os dias. Seu corpo loiro estava nu, deitado em torno de um círculo, e três sacerdotisas erguiam suas mãos formando um triângulo fora do círculo. Elas estavam vestidas com trajes brancos e cantavam cânticos, o ritmo das vozes crescia e pareciam se aprofundar como se estivessem declarando algo profano. As três vozes seguiam como se fossem uma e não havia mais nada na sala do ritual. Quanto mais forte a entonação dos cânticos ficava, mais Selene se contorcia até que suas mãos começaram a brilhar e uma luz irradiou, e como um raio atingiu as mãos da sacerdotisa que estava em pé atrás dela, mas nada lhe causando. Por alguns segundos aquela luz azulada ficou somente ali, até que se espalhou para as mãos das outras duas fechando o triângulo e seus olhos brilharam, os cânticos cessaram, e Selene viu.
Ela viu a frente do castelo e a planície que descia por uns cinco quilômetros até a floresta à esquerda e as grandes montanhas mais além. Esta era mais uma vantagem para o castelo: qualquer inimigo que se aproximasse era visto de longe. Ela não viu nenhum inimigo, mas havia algo lá e ela sabia que não era algo bom.
Sentiu que o talismã, mesmo estando em seu salão, queria lhe mostrar algo. Sabia dentro de si que ele queria lhe mostrar o futuro, mas era como ver através de vidros grossos e opacos – viu uma chuva de fogo, soldados mortos e quando seus olhos olharam para o salão do talismã este não estava mais lá. Olhou para as montanhas e havia um homem e um dragão, e quando tentou ver mais encontrou resistência. Atrás dos olhos verdes e conhecidos daquele homem havia sombras, algo feito de maldade, e uma dor alucinante percorreu cada centímetro de seu corpo. O homem a encarava, mas não era ele que temia, era outra coisa, algo que a aguardava. Selene não conseguiu se manter no transe, estava perdendo para a força mental de seu inimigo, aquilo não era comum, mas estava acontecendo. Despertou rapidamente e gemeu de dor. Aquela batalha ela perdeu, mas outra começava.

                                                           ***

Alfris percorreu o topo de toda a muralha, cumprimentando cada um dos cerca de oitenta soldados que ali estavam. Havia no castelo um efetivo total duzentos guerreiros, mais a metade disto em prontidão, e seis magos além da própria feiticeira. Todos sabiam que em caso de combate a missão era defender a vida dela juntamente com o talismã.
Ao chegar na parte de cima dos portões, Aag o acompanhava, era como um braço direito. Seus olhos vez ou outra divisavam o horizonte à sua direita, mas ele não via nada de diferente, apenas sentia a brisa que soprava ao longe vinda das montanhas. Parecia que nenhum mal se avizinhava, embora ele sentisse que as trevas aos poucos deitariam seu manto frio nas aragens de Vescra. Era mais um de seus pressentimentos, o mal às vezes lhe cantava aos ouvidos e ele nada podia fazer. Lembrou-se das visões de guerra que tivera durante um dos seus sonhos e como ficou preocupado. Após duas noites sem sono havia procurado Selene, que quis saber mais, e ele lhe confiou que guerras e mortes se aproximavam. E não era só isso, um pesadelo inconcebível partiria de Vescra para o mundo. Ela jurou que não contaria nada a seu irmão, e lhe pediu um favor:
– Aag, seu futuro é nebuloso para mim. Sei que suas ações influenciarão Alfris e que um dia precisarei de toda sua coragem e força, posso contar com você?
Aag estranhou à época que uma pessoa com os poderes de Selene lhe pedisse ajuda, mas não negou.
– Feiticeira, só desejo servir-lhe bem e posso falar o mesmo de meu irmão.
– Eu sei Aag, eu sei. O olhar dela naquela ocasião pareceu distante e perdido, mas havia algo mais, havia tristeza que ela soube mascarar.
Seu irmão foi conferir o silo e terminar outras atribuições de seu cargo. O muro cobria metade de seu corpo. À sua direita a alguns metros uma pequena torre de observação acomodava alguns arqueiros e à esquerda a segunda torre possuía o sino que era tocado em caso de ataque.
Na quarta vez que Aag olhou apreensivo para a frente do castelo, os homens ficaram incomodados. Henry, um dos guardas, procurou-o oferecendo uma maçã.
– Quer uma?
– Não, obrigado Henry.
– Já que não quer, vou comê-la.
– Fique à vontade.
– O que o aflige?
– Deu para perceber?
– Eu e os demais, esta inquietação gera mais inquietação.
– Não queria causar transtornos.
– Eu sei, mas me diga o que é.
– Não sei Henry, algo não está bem – Henry tocou-o nos ombros, apontou para a frente e disse.
– Não há nada lá.
– Eu sei, e é isso que me incomoda.
– Alguns dizem que você vê e ouve coisas. É verdade?
– Sim.
– O que vê?
– Não estou vendo nada, somente tenho esta sensação estranha.
– Aag, pedirei aos homens que fiquem em prontidão. Podemos simular um treino, algo para descarregar a sua tensão e dos soldados, e aposto que isto o deixará menos nervoso.
– É uma boa ideia, mas não vamos incomodá-los. Isto é coisa minha e se os homens souberem que estão treinando quando deveriam estar só de vigília perderei o moral com eles.
– Você é quem sabe Aag, mas se precisar me fale. Vou comentar com meus homens de confiança e pedir a eles que dediquem mais atenção na noite de hoje.
– Faça isso por mim.
Henry virou as costas e antes que desse mais alguns passos, Aag o chamou. Henry olhou para o rosto surpreso de Aag, que apontava com o dedo e dizia:
– Olhe aquilo.
Henry não viu nada e apenas se sentiu perdido, pois não sabia o que procurar, imaginou que o amigo estava enlouquecendo.
– À nossa esquerda, no alto, não é fumaça subindo? – perguntou Aag.
Henry observou toda a planície e seus olhos percorreram cada ponto da descida, pois se havia fumaça que ele não estava vendo deveria haver uma fogueira, mas não viu nada. Aag apontou para a Lua Crisis, que era das três luas de Ifíanor, a que estava mais baixa, embora fosse a menor e menos iluminada. Henry olhou e por instantes não viu nada até que pôde ver fumaça subindo graças à luz da lua. Era pouca, seus olhos desceram até o ponto em que deveria haver uma fogueira, mas não viram nada. Ele olhou mais detidamente e pôde ver outra torrente de fumaça subindo a alguns metros da primeira. Apontou para ela e com a garganta seca disse:
 – Olha outra ali, Aag.
– Estou vendo. É melhor tocarmos o sino, o que acha?
– Acho muito estranho uma fumaça sem fogo.
– Vai lá Henry.
– Tudo bem, Aag.
Quando Henry começou a caminhar, alguns gritos chamaram sua atenção. Olhou para trás e viu o silo em chamas, fogo dentro e fora do castelo. Aquilo inquietou ainda mais Aag.

                                               ***

Selene cobriu rapidamente o seu corpo e seus cabelos loiros caíram sobre uma manta branca. As sacerdotisas olhavam atordoadas para a rapidez com que ela vestia sua armadura e, preocupadas, aguardavam ordens.
– Chamem Alfris aqui agora, e mandem os magos auxiliarem Aag no que precisar imediatamente.
Uma das sacerdotisas confusa disse:
– Mas, Mestra, o que você viu? Não está acontecendo nada. Está tudo calmo lá fora.
– Faça o que eu digo. O tom de sua voz não dava margem para questionamentos, a sacerdotisa correu para fazer o que lhe fora ordenado. Quando uma outra ia sair para acompanhá-la, Selene ordenou:
– As demais fiquem aqui. Vão me ajudar com seus poderes a ativar o talismã.
– O que? gritou uma das sacerdotisas. Mas ele nunca... – suas palavras foram cortadas pelo olhar frio e incisivo de Selene.
– Preparem-se. Um inimigo está se aproximando, temos pouco tempo.


                                               ***

Tanor contemplava o castelo de Dankar a sua frente, o vento batia na sua longa capa e seus cabelos negros sacudiam. Ele observava e não era observado, apenas aguardando um sinal. Seu contato dentro do castelo colocaria fogo em breve no silo. É hora de partir com ou sem sinal – pensou.
 Olhou para trás e seu pequeno grupo estava ali reunido. Os ciclopes irmãos Andrû e Andril com seus quase quatro metros municiavam as duas catapultas. Alessandra e os outros dois magos mantinham a cortina de invisibilidade, que permitia que não fossem vistos ao se aproximarem, nem o poder da feiticeira fosse capaz de notá-los. Os anões Ygor e Groom eram seus auxiliares diretos junto com o necromancer Jouthan.
Groom dava as últimas instruções para seus comandados – cerca de cem entre soldados e arqueiros.
Jouthan estava de frente para uma pedra de uns dois metros, concentrando-se na rocha, suas mãos envoltas de uma aura cinza. Reclinou-se e riscou o chão como um pêndulo, primeiro com sua mão direita depois com a esquerda, afastou-se e a rocha começou a tomar forma. Ela tremia, algo queria sair, estava moldando-se de dentro para fora. A rocha vibrava como se fosse explodir e os pássaros que estavam em uma árvore próxima voaram espantados. A coisa então foi se acalmando e ele pôde ver que ela parecia com algo humano, era um golem de pedra, um gigante formado de rocha, sem vida, apenas controlado por seu criador. Isso sempre me assusta não importa quantas vezes veja.
 Alessandra se aproximou de Tanor – seus cabelos loiros, curtos à altura da nuca, irradiavam mais a sua beleza e seus grandes olhos esmeraldas parecendo presentes dados ao seu rosto fino e branco destacavam seu corpo franzino. Tanor pensou como ela poderia enganar muitos que a julgassem pela aparência, mas era uma das magas guerreiras mais poderosas de todo o planeta.
– Senhor, está na hora.
– Obrigado, Alessandra. – Tanor deu um assobio alto e então um dragão branco desceu voando até eles. Era muito maior que o maior dos touros da região de Dankar, mas ainda assim era jovem. Tinha pouco mais de cem anos, possuía longas presas e uma escama branca brilhante e bastante resistente, a couraça já havia se consolidado, o animal se apoiava nas quatro patas e era mais alto que os ciclopes. Ele abaixou-se e estendeu a cabeça até os braços de Tanor como um cão procurando o afago do dono, que por sua vez acariciou o animal e este correspondeu. Havia ali um vínculo muito forte, nascido de uma promessa de sangue, talvez por isso Sef quase não falava nada.
– Já estou pronto, mas antes... – Tanor gritou – Ygor e Groom, venham comigo. O anão que estava coberto ora por sua armadura ora pela longa barba negra segurou dois machados e se aproximou dele. Este era Ygor. Groom era idêntico a Ygor, eram gêmeos. – Podem montar – os anões olharam desconfiados. Tanor riu. – Sef não irá atacá-los – ambos, ainda sem muita confiança, entreolharam-se e com cautela excessiva subiram. O animal deu um pequena refogueada, que os incomodou, mas depois relaxou. Tanor olhou diretamente para os olhos acolhedores de Alessandra e disse:
– Pode começar – ela ergueu as duas mãos, esticou as palmas, depois aproximou-as da boca como se fosse orar e soprou. Uma pequena névoa ficou pairando e ela empurrou na direção dos três. Quando Tanor montou no dragão ela pronunciou:
 – OFINEM ACHARUM INVISIBLE. Eles ficaram invisíveis aos olhos dos demais, mas Tanor, Ygor e Sef podiam vê-los. Era o truque da barreira sendo usado neles. Alessandra sorriu e caminhou na direção de Tanor, estendeu sua boca e para quem olhasse parecia que estava beijando o ar, mas ele a correspondia e afagava seu pescoço. Ela se afastou e disse:
– Agora vá, que a magia distante de mim só vai durar uns dez minutos.
– É mais que suficiente – ele disse algo incompreensível no ouvido do dragão e este ergueu voo. Eles se encaminhavam para as costas do castelo, rumo à montanha, quando Tanor viu seu arqueiros ascendendo a ponta de suas flechas e Jouthan criando um outro golem, este de fogo, e quando sobrevoou o pátio do castelo viu o silo em chamas. Tudo corre como o previsto – pensou.

                                               ***

Alfris perseguiu um vulto misterioso que ele viu sair correndo do silo. Antes deu ordens para apagarem o fogo. Quando chegou ao final do pátio próximo à sala de armas, o vulto parou. Estava encoberto por um capuz. Alfris já havia percebido que se tratava de uma mulher e ergueu sua espada. O fraco brilho da lua Crisis foi suficiente para iluminar não só a arma, como todo o seu elmo, a única coisa visível em seu rosto eram seus olhos. A mulher à frente não hesitou e sacou uma pequena adaga. Alfris ficou imóvel. Mas esta adaga é idêntica à que dei a Lessa. Aquilo o inquietou.
– Onde você conseguiu esta adaga? – A estranha permaneceu em silêncio analisando o homem à sua frente e sua postura defensiva repentinamente cedeu e ela o interpelou:
– É você Alfris? – Para tristeza dele a voz era familiar. Ao longe pôde escutar alguém dizer – “Alguém está atacando” – mas sua mente estava focada apenas naquela figura misteriosa a sua frente e em seu pensamento. Não pode ser ela. Ele retirou o seu elmo, jogou-o no chão e disse:
– Sou eu mesmo. Por que fez isso Lessa? – A mulher retirou seu capuz e ele pôde comprovar a verdade de suas palavras. Aquilo só podia ser um pesadelo, pensava, mas ela o fitava com um olhar de resignação. Havia algo a mais. Percebeu que aquilo no olhar dela, que raras vezes em sua vida já encontrara, era uma devoção rara. Ela olhava para ele e parecia ver através de sua armadura, de seu corpo, da carne... ia além, e ele se sentiu nu. Algo que não iria compreender e que palavras não explicariam.
– Por que tinha de ser feito, você nunca entenderia.
– Tente me explicar. Por enquanto devo prendê-la, mas sei que a feiticeira poderia perdoá-la.
– Alfris, eu amo Aag e ele nunca entenderia meus motivos, portanto não deixe que ele saiba o que você viu hoje.
– Infelizmente eu não posso, você o colocou em perigo e a todos nós.
– Alfris, a morte quando certa, sempre vem com um olhar conhecido e com julgamento.
– Ninguém precisa morrer Lessa.
Ela sorriu e ergueu novamente a adaga com a mão direita segurando firme seu punho. Ele não se mobilizou, não estava disposto a lutar contra ela. Mas num gesto rápido, houve uma ruptura, um grito e sangue. A mulher caiu de joelhos. Alfris correu para socorrê-la e com uma certa facilidade retirou a lâmina da cintura dela. Ela havia cravado forte e rasgado seu ventre, o sangue jorrava e as mãos dele se confundiam em meio aos órgãos dela.
– Por que você fez isso Lessa? Por quê? Que loucura foi esta? – As lágrimas caiam no rosto quase sem vida dela.
– Não diga a Aag que fui eu, ele nunca vai entender, mas eu tinha que fazer – Ela cuspia sangue enquanto falava.
– Não fale mais nada – respondeu Alfris, mas não era preciso, pois seus grandes olhos negros fecharam-se para o mundo. Ele a carregou nos braços e caminhou até o salão de armas, mesmo sabendo que estavam sendo atacados.


                                                           ***

Aag não teve tempo de olhar para o silo, pois viu várias flechas em chamas, riscos flamejantes que cortavam o céu negro em sua direção. Teve tempo e agilidade suficientes para se esquivar e ergueu seu escudo enquanto esperava pelo próximo ataque. Tudo estava acontecendo muito rápido, os homens haviam sido pegos de surpresa, estavam sem iniciativa. Alguns foram atingidos pelas flechas, outros auxiliavam os feridos e mais alguns corriam para apagar o fogo no silo, não conseguiam ver que tinham sido atacados. Um rápido olhar para a planície e nada, não via ninguém. Imaginava várias coisas, mas não sabia dar ordem aos pensamentos. Henry estava à sua frente, atordoado e incrédulo, o mesmo pensamento passava pela sua cabeça – O que os atacara? Mas um outro pensamento venceu a dúvida inicial, ele se ergueu e gritou para o companheiro:
– Henry, os sinos! – Este, como se acordasse de um sonho, assimilou a ordem do amigo e correu em direção à torre central. Aag olhou para o horizonte buscando uma resposta. Seria magia? Mas como alguém criaria tantas flechas e com que finalidade? Não podia ser isso. Pensou em invisibilidade, mas, para que alguém conseguisse ocultar tantas pessoas e por tanto tempo – afinal era um longo caminho até os portões do castelo – era preciso um mago muito poderoso, muito mais que a feiticeira Selene, e Aag não achava que tal pessoa existisse. Seus pensamentos foram interrompidos por outra saraivada de flechas que vinham. Ergueu o escudo novamente e se defendeu, outros homens faziam o mesmo e os sinos agora estavam tocando estridentes.
Quando olhou novamente para frente, viu quatro enormes pedras virem na direção do castelo arremessadas certamente por uma catapulta, mas aquilo não o preocupava. O que o atordoava era a direção de uma delas, que ia de encontro à torre onde Henry estava. Aag não teve tempo de gritar. A pedra atingiu seu alvo com eficiência destruindo boa parte da torre, ele só pode ver um dos sinos caindo junto com o corpo de seu amigo no pátio do castelo. Não teve tempo de chorar ou se lamentar.
Aag chamou alguns homens e ordenou que os arqueiros se preparassem.
– Mas onde vamos atirar? Em que? – disse um dos arqueiros.
– Vamos atirar no mesmo ângulo em que as flechas estão vindo, certamente os atiradores deles estão sendo ocultados por magia. Agora preparem-se.  Espalhem a minha ordem por toda a linha de defesa da muralha, vamos atirar à vontade.
Os homens estenderam seus arcos e quando um nova chuva de flechas veio em sua direção, eles já haviam atirado, se defenderam e depois olharam como se esperassem uma resposta. Um dos homens falou:
– Não acertamos nada senhor.
            – Acertamos sim. Olhem e procurem as nossas flechas. – Os homens olharam e nada viram.
            – Não há nada lá, senhor.
            – Mas é isto mesmo, elas estão acobertadas por magia. Existe um exército lá se escondendo de nós. Estão invisíveis, e se assim estão fazendo é porque não tem capacidade de enfrentar nosso exército em condições reais, portanto disparem mais.         Os homens, tomados por uma nova disposição, dispararam mais confiantes. E quando outra saraivada de flechas veio em direção a eles, já estavam mais preparados. Aag se preocupava com os pedregulhos, que certamente viriam de novo. Mal tinha pensado nisto e viu vários deles vindo – um deles vinha em sua direção.
            – Protejam-se, homens! – Aag abaixou-se, preparando-se para o impacto. Era a única coisa que podia fazer, mas nada ocorreu e quando levantou os olhos, a enorme pedra flutuava alguns metros acima de sua cabeça. Ele buscou por explicações e viu os seis magos na ponte que unia o castelo à muralha de frente, manipulando-a como uma marionete com fios invisíveis, e jogando a frente do castelo.
            Aag chamou quatro de seus homens e correu até os magos. Emir era o chefe dos magos. Ele olhava para a planície como se medisse palmo a palmo o campo a sua frente, ergueu suas mãos, um raio circundou os seus dois braços ao mesmo tempo em que disse SIRIUS LITHIUM. Disparou na direção do campo, mas o raio foi interceptado por um outro que saiu da planície como se brotasse do chão.
            – Temos alguns magos poderosos ali, Aag. Vou precisar da ajuda de vocês e será perigoso.
            – Emir, desde que consiga romper esta barreira de invisibilidade, terá toda a ajuda.
            – Sim, mas nos atacarão quando tentarmos desfazer a magia deles, preciso que nos proteja até lá.
            – Homens, façam uma barreira à frente deles com seus escudos. Kurt, busque mais seis homens e tirem estes corpos daqui. Peça aos arqueiros que atirem no local de onde veio o raio.
            Emir estava concentrado enquanto os demais magos o rodeavam e aguardavam pelos reforços de Kurt. O que Emir pede é praticamente um suicídio, e onde está Alfris? Deveria estar aqui nos comandando – pensou Aag.
            Os soldados vinham de todas as partes, inclusive do pátio. Parecia que o fogo estava sendo contido, mas neste momento duas coisas preocupavam Aag. Primeiro uma bola de fogo que vinha de encontro ao lado oposto onde ele estava e atingiria o pátio. Mas o segundo fato, este sim, despertou medo nele. Ouviu um canto sombrio e profano, algo que nenhum ser deveria escutar. Embora fosse ilógico, aquilo parecia o sussurar da morte.
            Olhou para o lado e viu os homens inquietos e nervosos. Tremiam, tinham os pelos ouriçados, a voz vinha de todos os lugares ao mesmo tempo. Aag paralisou por alguns segundos. Precisou de uma certa força de vontade para se recompor e, quando olhou para o pátio onde o sino e o corpo de seu amigo Henry se encontravam, viu o corpo dele se mexendo, tremendo, como se ainda estivesse vivo. As mãos cruzaram-se rasgando uma à outra até o esqueleto e em segundos não havia mais carne ou sangue. O corpo foi ficando de pé; a pele, os tecidos e músculos caiam como se estivessem presos aos ossos por uma cola fraca. Apenas o esqueleto com dois globos oculares restou e aquele ser que desafiava a morte e a compreensão, vomitado de seu próprio corpo morto, olhou para seus restos como se aquilo nada significasse, correu a mão pelo cinto e pegou a espada. Um soldado que estava no pátio assistia a tudo incrédulo, foi quando aquela caveira correu em sua direção erguendo a espada para atingi-lo, e após matá-lo procurou outro. Aag pôde jurar que ela havia dado uma risada. Um soldado gritou para ele descer.
            – Não posso, tenho que defender os magos – olhou para os cadáveres na muralha e o mesmo processo se repetia, eles ganhavam vida. Então gritou – Ataquem as caveiras homens, temos um necromancer por perto. – Rapidamente os soldados lutavam com os novos inimigos enquanto os magos por alguns instantes ficaram indefesos. Não havia escudos, nada. Qualquer flecha poderia atingi-los, mas não foi uma flecha que veio em sua direção. Foi outro raio vindo do nada acima do chão, mas Emir levantou uma barreira de luz azul que os defendeu. 
             Cerca de cinquenta homens estavam nas muralhas enfrentando o que quer que aparecesse. O efeito surpresa do ataque já não era mais tão efetivo. Outros tantos estavam no pátio enfrentando as caveiras vivas, pois elas tombavam com uma espadada e logo se erguiam e seu corpo ser recompunha. Havia luta em todo o castelo e Aag ainda não vira um inimigo vivo sequer. Se aquilo era uma invasão, já estava tornando-se previsível e os homens, embora ocupados com esse novo empecilho, encontravam-se preparados para um ataque direto. Passados alguns segundos, a estranha voz cessou e guerreiros que tombavam não voltavam à vida como caveiras.
– Isto está longe de ser o fim, homens. Continuem em guarda.
            De repente uma explosão no portão central – dois gigantes, um de pedra e um de fogo, tinham entre 8 e 10 metros, grandes braços, eram golens criados através de magia. Já havia visto Emir criar um uma vez, mas que merda, não era nem a metade do tamanho daqueles. O de fogo diferenciava-se do outro nas chamas que saiam das frestas de seu corpo. Ambos entraram arrancando o restante do portão e atacando os soldados no pátio e novamente Aag escutou aquela melodia que dava vida aos mortos, aquele som profano e antinatural. Outras caveiras surgiam de cadáveres, maculando aqueles corpos e junto a isso uma nova saraivada de flechas vinha em direção ao castelo, foi quando sentiu alguém tocar seu ombro esquerdo e seu corpo projetou-se para atacar, mas conteve-se a tempo. Era Alfris.

***
            Tanor não teve dificuldades em entrar no castelo pela parte de cima. Seu dragão alçou voo esperando um sinal para voltar e pegar seu mestre. Ele e seus dois companheiros anões encontraram pouca resistência – um a um os soldados que apareciam eram vítimas dos machados rápidos dos pequenos.
            Quando o trio chegou ao salão do talismã, este se encontrava vazio. Tanor olhou em volta e, como se farejasse algo invisível, trançava as mãos no ar, procurando algo que o olfato deixava escapar. Os anões olhavam aquilo indiferentes. Mesmo que estivessem estranhando tudo, não deixaram transparecer. Ele então parou e pôde ver traços verdes de energia que pairavam no ambiente. Os anões não viam, mas ele firmou sua posição e mais atento disse:
            – O talismã foi ativado, tenham cuidado. Vamos procurar a feiticeira sem nos separarmos.

***

            Alessandra, junto com os outros dois magos, mantinham a barreira de invisibilidade firme contra a investida dos magos do castelo e várias vezes disparavam um ou outro raio de energia em direção aos seis. Não era nada poderoso, ela sabia que a intenção era só distrair, mas não precisou fazê-lo por muito tempo, pois no momento em que os golens invadiram, todos no castelo, inclusive os magos, detiveram suas atenções nos dois seres. Com o comando que lhe era natural, ordenou aos arqueiros:
            – Atirem mais duas vezes e vamos embora, desarmem as catapultas e levem tudo o que pode nos entregar.
            Andrû olhou desconfiado, mas nada disse, ao contrário de Cássio, o chefe dos soldados:
            – Minha senhora, o senhor Tanor ainda está lá e se eu mandar os homens invadirem, podemos tomar o castelo facilmente.
            – Cássio, não é nossa missão tomar o castelo, não queremos que ninguém saiba quem somos, não por agora. Quanto a Tanor, ele saíra do castelo tão facilmente quanto entrou. Os homens de Dankar já têm preocupações demais com os golens e mortos-vivos, não há necessidade de sacrificarmos ninguém. A melhor vitória é aquela que não precisa ser travada.
            O chefe dos guardas não disse mais nada a Alessandra, apenas sinalizou para que seus homens se preparassem para se retirar. E cinco minutos depois eles estavam saindo da frente do castelo, da mesma forma com que entraram: sem serem notados, deixando para trás somente os golens, a morte e a dúvida.

***

Uma caveira atacou Aag antes que ele entrasse pela passagem secreta ao lado do muro. O sangue frio de Alfris perante os dois gigantes ainda estava em sua memória e só teve tempo de dizer:
– Aag, vá atrás da feiticeira.
Ele está te protegendo, mas de outra forma – disse a voz em sua mente. Aag correu pelos corredores estreitos da passagem, e em sua cabeça as vozes disparavam e gritavam: vida, morte, salvar, morrer, lutar. Aquelas palavras poderiam até fazer sentido, mas ele não queria pensar nisso agora. Antes ficava durante noites parado, escrevendo o que elas tinham para dizer, agora não perderia um segundo.
Ao final do corredor, ativou a passagem que dava para os aposentos da feiticeira. Se seguisse reto sairia no vilarejo, mas tinha que entrar e encontrá-la. Escutou vozes e entrou na pequena sala anterior ao salão, por trás de uma falsa biblioteca, mas não havia ninguém – as vozes vinham do salão principal. Correu como se sua vida dependesse daquilo, com a espada em punho. Abriu a porta e viu a feiticeira e três de suas auxiliares na frente do salão, na parte oposta onde se encontrava. Do outro lado, dois anões e um homem estavam a quatro ou cinco metros, haviam descido as escadas, onde havia corpos de soldados. Os dois pequenos olhavam para ele como se já tivessem decidido seu destino, enquanto o outro homem nem mesmo se virou, concentrava-se nas mulheres à frente.

***

             Os dois gigantes destruíam tudo com o que deparavam e o que estava em chamas ainda era mais perigoso, porque vez ou outra soprava um fogo quase tão poderoso quanto um dragão. Alguns soldados conseguiam se esquivar, outros não. Alfris gritou para que Emir atacasse os golens, mas este respondeu que estava quase conseguindo quebrar a barreira de invisibilidade.
            Alfris estranhou o fato de Kurt e alguns homens estarem com os escudos chamuscados, mas não havia baixas ali, apenas caveiras ao chão. Aparentemente quando surgia uma, alguns soldados saíam de trás dos magos e lutavam com elas, jogando as suas cabeças no pátio, e aquilo fazia com que não se levantassem de novo.
            – Não importa, se não detivermos aquelas duas bestas, o castelo sucumbirá. Arrume uma forma de detê-los, nós vamos distraí-los. Kurt, você e os outros vão lá para baixo e peguem os machados.
            – Senhor Alfris, estaremos suscetíveis aos ataques mágicos deles se nos concentrarmos nos golens – retrucou Emir.
            – É um risco que iremos correr.
            – Tenho uma idéia, chefe Alfris – disse Emir.
            – Diga.
            – Eu acho que consigo reduzir o tamanho deles pela metade. Só preciso de alguns minutos.
            – Faça isso. – Alfris alternava entre dar ordens e se defender, o pátio tinha se tornado uma arena.
            Os magos do alto da murada dispararam esferas e mais esferas de energia nos golens. Quando estes iam revidar, eram atacados por machados e lanças dos homens que estavam na parte de baixo. As caveiras, uma a uma, eram separadas de suas cabeças e não retornavam.
***

            Ygor ergueu os olhos e fitando Aag disse:
            – Achei que não teríamos mais diversão Groom, uma vez que anões não gostam de lutar com mulheres.
Aag não se deixou intimidar pelas palavras hostis do anão, levantou sua espada e preocupou-se com seu objetivo. Não demorou um segundo para que dois grandes machados começassem a dançar na direção do jovem guerreiro. Ele correu e saltou por cima dos dois, não tomou conhecimento e correu, passando ao lado de Tanor, erguendo a espada para atingi-lo. Foi quando sentiu seu corpo ser arremessado ao lado da parede. Ele não viu como, nem quando o homem fez aquilo, foi muito rápido, mas aquele golpe invisível o acertou com muita força. Ergueu-se aos poucos, os anões olharam incrédulos e por alguns segundos se detiveram, pensando que estava morto, mas ficaram surpresos ao verem que ele foi se arrastando em direção às sacerdotisas que o ajudaram a se levantar. Os anões se posicionavam para atacar. Durante alguns segundos, ninguém disse nada.
O silêncio ainda permanecia uma muralha instransponível naquela sala. E agora somente duas pessoas pareciam aptas a quebrá-lo. Tanor com um tom debochado, mas colérico:
– Parece que até com o talismã ativado você tem medo Selene, ou será que ficou fraca? – Selene observava a tensão no rosto de Tanor, seus poderes estranhamente estavam sendo anulados por ele.
– Você nunca foi capaz de me superar, porque hoje seria diferente? O que quer com o talismã?
– Você é a guardiã dele e nem sabe toda a sua potencialidade, mas isto não importa, porque além de conseguir o que eu vim buscar, vou poder retribuir-lhe o que fez a minha irmã.
 Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Os anões investiram contra Aag e Tanor ficou encoberto com uma aura azul.


                                               ***

Quando os golens ficaram menores e recuaram, Alfris ordenou que os homens atacassem as pernas de ambos e os magos atacaram as cabeças.
– Vou mostrar a estes invasores que nós também sabemos alguns truques mágicos.
Alfris pegou um grande martelo de batalha e segurou-o com a mão direita, enquanto a mão esquerda parecia ungi-lo. Ao mesmo tempo em que ele pronunciava algumas palavras mágicas, o martelo vibrou em sua mão, ele sorriu e correu por toda a murada, até que pulou e acertou a cabeça do golem de pedra. O martelo reverberou, como se fosse o eco de centenas de marretadas. A onda de ar jogou as caveiras que restavam no chão, enquanto rachava o golem em pedaços. Até mesmo o gigante em chamas recuou com a onda sonora que se propagou. Alfris, embora fosse corpulento e forte, caiu graciosamente no chão, tal qual um elfo.
Os segundos que levaram para que o golem de fogo recuasse e retomasse a investida foram suficientes para que Alfris corresse na direção do inimigo e o acertasse na perna. Novamente o martelo ecoou com aquela fusão de força e magia e estilhaçou a perna direita do monstro. Emir e os demais magos lançaram uma rajada de magia conjunta que destruiu o golem, fazendo-o desfazer-se em pequenas pedras flamejantes, que logo se apagaram.
             Os homens comemoravam, impressionados com as ações de Alfris. Não há tempo de comemorar – pensou. – Não acabou, homens. Quero todos em formação de combate agora, vamos sair do castelo e enfrentar quem quer que esteja nos atacando. – Rapidamente os soldados estavam lado a lado com espadas e escudos prontos e marcharam para fora do castelo.
                                                           ***

            Os machados dos anões subiam e desciam em sincronia, e Aag tinha dificuldades em atacar e defender ao mesmo tempo. Tanor investia com raios mágicos contra Selene – uma das feiticeiras que a ajudava já havia caído ao chão. Aag preocupava-se com elas, mas aquele confronto mágico não era para ele, além dos anões estarem o atacando rapidamente, não sabia muita coisa de magia. Groom ria a cada golpe que disparava contra Aag, este se desviava com desenvoltura. Os dois anões pareciam se divertir. Tanor disse:
            – Embora o talismã aumente o poder mágico do portador consideravelmente, você parece estar se contendo Selene, ou melhor, acho que não é capaz de me tocar. – Havia deboche em sua voz.
            – Você precisa de truques para anular os meus poderes. De quem é esta sombra atrás de você? – Ele não respondeu. Selene estranhava, pois qualquer coisa que fazia era facilmente repelida. Havia tentado dois ataques mentais e uma coisa se colocava entre ela e ele. Era estranho, não via nenhuma outra presença ali, mas quando conseguia fazer ataques mágicos eram fracos e débeis, até sua velocidade era menor. Tanor nunca foi capaz de me derrotar, mas agora faz isso facilmente, mesmo com o talismã multiplicando meus poderes estou acuada.
            – Você não conhece o poder do Talismã, Tanor.
            – Você não tem o direito de portá-lo, não depois do que fez a Tania.
            – Então é este o motivo de estar atacando meu castelo e as pessoas aqui?
            – Se fosse por isto eu viria sozinho enfrentá-la. Não vim aqui para me vingar, mas as circunstâncias cominaram os meus objetivos com a vontade de retribuir-lhe o que fez a ela. Você e Círdan aliaram-se para matá-la, eu deveria ter visto isto quando saímos de Agonia. Ao terminar esta frase, Tanor bateu as palmas das mãos e a energia azul brilhante que saiu de seu corpo disparou rapidamente contra as sacerdotisas. O talismã emitiu uma luz e conseguiu repelir o ataque a Selene, mas as outras duas auxiliares caíram ao chão mortas.
            – Pelo visto você sabe utilizar a poder defensivo do talismã, mas não creio que ele irá protegê-la por muito tempo. O homem começou a proferir algumas palavras, a feiticeira aproveitou o instante e lançou duas esferas vermelhas de pura energia que se dispersaram antes de chegar a Tanor. Selene olhou incrédula. Tenho que descobrir o que está o protegendo e só existe uma forma, um ataque direto à sua alma.
            O homem proferia suas palavras, indiferente a ela e aos demais. Selene soube que tinha pouco tempo, sua alma projetou-se para atacar a dele, mas no momento do golpe uma sombra surgiu saindo de dentro dele, negra e maligna, defendeu o ataque e sorriu para ela. O restante de seu rosto era amorfo.
Tenho que recuar e sair daqui, qualquer coisa que fizer será inútil. – Selene suava aterrorizada.
            – Temos que sair daqui Aag, não vou poder conter o poder dele. – Aag recuou alguns passos e posicionou-se entre ela, os anões e atrás deles Tanor, que continuava a proferir palavras que Aag não conseguia compreender.
            – Fuja pela passagem, eu vou ganhar tempo. Em breve meu irmão estará aqui.
            – Não posso ir sem você Aag.
            – Não se preocupe, vou logo atrás – mas ele não foi, nem mesmo ela saiu dali, a magia de Tanor não permitia.
            Groom correu para atacá-lo com ferocidade. Aag deteve o ataque com sua espada, derrubando-o logo após com uma rasteira. O anão não pareceu sentir o tombo, pois rapidamente aproveitando a investida do irmão, se recompôs. Aag lutava com os dois sem medo, sua agilidade compensava o fato de estar em desvantagem. Merda, se fosse apenas um – pensou.
            Selene disse algumas palavras em um língua que Aag não conhecia e o Talismã brilhou intensamente. No momento em que Tanor abria seus olhos e sua sombra se projetava maior atrás dele, a aura azul ficou negra e começou a movimentar-se com rapidez. Seus braços ergueram-se e ele conjurou uma grande esfera daquela energia negra que prendeu Selene. A feiticeira se debatia como se estivesse sem fôlego, depois tudo aconteceu muito rápido.
            Aag interpôs, e a explosão de energia arremessou-o a uns quatro metros. Selene atacou Tanor com magia, mas este repeliu tão facilmente, que pareceu não se esforçar, então ele projetou-a na parede, seu corpo ficou flutuando preso, como se pulseiras estivessem crucificando-a, mas nada visível a prendia, era apenas magia. Com um gesto de mão ele jogou-a no chão e com outro o talismã foi arrancado de seu pescoço para a sua mão esquerda. Caminhou a passos lentos até a feiticeira, enquanto os anões aguardavam.

                                                           ***

Alfris corria para o castelo, aquele ataque somente poderia ter sido um engodo. Não havia ninguém na planície, apenas vestígios de fogueira e flechas ao chão. Ninguém estava ali, nenhum homem. Não havia nem sangue, seus arqueiros não atingiram o inimigo. Agora seus pensamentos estavam em Aag, Lessa e Selene.


                                               ***

– O que minha irmã disse antes que você a matasse? – perguntou Tanor.
– Sua irmã havia se transformado em um monstro e eu fui misericordiosa com ela. Apenas isso e ela agradeceu, foi o desejo dela.
– Você mente, mas eu não vou ser misericordioso com você como foi com ela. Eu lhe trouxe um presente e você sentirá o mesmo ódio que senti ao ser traído por você e Círdan.
Tanor com gesto de mão fez com que o corpo da feiticeira se levantasse até que ficasse na altura do seu. Caminhou mais alguns passos, ela ainda estava presa e não conseguia se mover por causa da magia dele. O homem então inclinou o pescoço para o lado, quase tocando o ombro direito, e olhou-a nos olhos – eram os olhos dele que a olhavam, mas ela sentia que aquela outra coisa que tinha lhe sorrido era quem realmente a fitava sedenta por Selene.
Tanor não se deteve quando Aag gritou e correu em sua direção. Continuou ali olhando e aquilo assustava Selene. Era a primeira vez que sentia medo em combate. Não temia a morte, mas o que estava ali oculto, isso ela temia.
Groom colocou-se entre Tanor e Aag. Este conseguiu se desviar e cravar uma adaga na perna do anão e o pequeno gritou de dor, mas o golpe de Ygor foi rápido e o machado o penetrou no peito. Enquanto ele caía, viu uma coisa negra sair da boca de Tanor. Aquilo parecia rastejar no ar, era uma sombra, era maléfico e aos poucos entrava na boca de Selene e, no meio de suas pernas, eles se beijaram.
Selene sentia-se violentada, mas de uma forma mais profunda e hedionda, sua alma é que estava aceitando aquela coisa que a invadia lentamente em todos cantos de seu corpo. Queria vomitar, mas estava paralisada, o mal adentrava como se deliciando de cada parte que tocava. Se pudesse morrer teria feito. Na medida em que aquela sombra ganhava seu corpo, injetava nela um sentimento, aquilo havia sido criado com ódio, uma magia inominável. Odiou Tanor, odiou suas sacerdotisas, odiou seu pai e até mesmo Aag que caiu para proteger-lhe, mas odiou mais ainda o fato de ter tido um orgasmo quando aquela magia negra terminou de invadi-la entre suas pernas. Quando Tanor terminou, sua fisionomia mudou, era como se fosse seu antigo amigo, havia lágrimas em seus olhos e ele disse:
– Desculpe-me, mas foi preciso, é por algo maior que nós dois. – Não houve tempo para responder... queria perguntar por que?
Ela caiu ao lado de Aag, seu corpo se contorcia tentando rejeitar o corpo estranho, lutando, até que a coisa a venceu e ela desmaiou. Tanor cambaleou antes de se levantar.
Alfris chegou a tempo de ver a feiticeira tombar e correu para atacar o anão Groom que, mesmo com a perna machucada colocou-se ao lado do gêmeo, ambos se defendiam do ataque feroz e agressivo de Alfris. Groom ria, Ygor não.
Tanor, utilizando novamente sua magia e com um gesto de braço, primeiramente fez Alfris flutuar, depois o arremessou contra a parede. O impacto foi forte o suficiente para rachar o seu elmo no meio. O homem ainda assim tentou levantar-se, mas seus inimigos se retiravam. Morreria se investisse novamente contra eles, e tinha que se preocupar com a feiticeira e com seu irmão.
Com dificuldade, ele caminhou para o corpo de Aag. Queimado pela magia e cortado do lado direito pelo machado, o jovem engasgava com o próprio sangue, mas fez um esforço para cuspir e dizer algo.
– Alfris, me escute – ele segurou o braço do irmão que o tinha colocado no seu colo.
– Não precisa dizer nada, Aag. – As lágrimas escorriam pelos olhos de Alfris.
– É importante... você tem que proteger Selene. O mal que foi desperto pode retornar, a criança profetizada vai nascer, o selo será quebrado.
Alfris não via sentindo nas palavras do irmão, mas as memorizava.
            – Irmão, cuide de minha filha para nós. Lisa terá um papel importante. – O garoto lutava para pronunciar cada palavra, o sangue jorrava de seu ferimento, não havia cura para aquilo e Alfris sabia. Queria que o irmão parasse de falar e morresse em paz, mas ele não desejava isso, escutava e olhava para o irmão sabendo que iria perdê-lo. Ficou imaginando se Aag sabia que Lessa havia morrido, por causa de sua última frase. Como se lesse seus pensamentos, Aag disse:
            – Eu sei Alfris, não se preocupe. Tenho um presente para você. – Apertou o braço de Alfris, que sentiu um choque vindo de seu irmão, e neste instante Aag morreu. Alfris sentiu muita dor pela perda, mas sentiu ódio de sua incapacidade de salvá-lo e jurou vingança contra os anões e Tanor. Olhou para o corpo morto do irmão e ergueu-o no colo. Selene já havia acordado e chorava. Outros soldados entravam na sala e Alfris deu ordem para que cuidassem dela. Levou o irmão até o corpo da esposa. Iria enterrá-los juntos, lado a lado, e jurou ali que o mal que fizera isso a sua família iria pagar, especialmente o anão. Cada respiração dele neste mundo seria uma ofensa à existência de Alfris.


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